O embondeiro continua a ser a minha árvore preferida, desde o tempo em que os via todos os dias em Moçambique. Não, em
Portugal não há, mas decerto se lembram dos da história do Principezinho, de Saint-Exupèry.
O embondeiro parece ter sido enterrado de cabeça para baixo no solo que o
acolhe. No lugar dos ramos ficaram as suas raízes. Esta inversão estrutural,
metafórica, recorda-me que os sonhos são o mais importante. Quando temos a raiz
nos nossos sonhos e nos enterramos, agarrando-nos a eles, permitimo-nos
ir mais longe, voar para além das rotinas, dos trabalhos, das actividades. Vamos
mais fundo para nos (re)descobrirmos. Somos radicais.
Nem sempre é fácil. Muitas vezes esquecemo-nos de regar o embondeiro que
somos, de lhe dar luz, deixamos que os sonhos sequem e murchem. Outras vezes
pensamos que o mundo tem que ser de uma forma pré-determinada e aí viramos a
nossa árvore ao contrário enterrando os sonhos bem fundo.
Assassinamos
os nossos sonhos, suicidamos a nossa essência.
Seria
bom tentar, a cada dia, concretizar os nossos pequenos sonhos, aqueles que
adiamos por falta de tempo ou de coragem, seria bom tentar, a cada dia,
concretizar os sonhos de alguém. Os sonhos devem ser desejados, cuidados,
protegidos, alimentados. E também partilhados.
Um
embondeiro, em Moçambique, é considerado uma árvore sagrada. Está disponível,
frágil, desarmada e por isso forte e velada por todos. Precisamos gritar os
sonhos, expor-nos ao mundo.
Viver
o sonho é ser feliz, é alegrar-mo-nos com o sol que toca os nossos ramos, é
sentir a chuva que toca o nosso tronco, é ter no chão crenças profundas que nos
agarram ao âmago do que nos faz viver.
(foto: pequeno embondeiro, Malawi)
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